Já aqui a falei, mulher de trabalho, por demais desprezada pela sorte, que nunca se lembrou dela. Nem no dia do nascimento, em família necessitada de bairro social. Nem na juventude, consumida nas bancas de uma conserveira. Nem no dia do casamento, com aquele que havia de lhe atemorizar os dias entre ameaças e sovas, a todo o pretexto, ou sem pretexto nenhum.
A Dona S. prepara as consoadas com o que tem por ali à mão, comprado com sacrifício ou recebido com humildade, na esperança de uma ceia de Natal em paz. Quer-lhe a sina que os Natais sejam de discórdia, e se a ceia quase nunca termina, vezes há que nem chega a começar.
Este ano já se adivinha, que a filha mais nova escolheu as vésperas para lhe anunciar uma natalidade a destempo, que nem a idade, nem o tino, lhe consentem tamanha empreitada.
Tal a desdita que não a larga, assim eternizada em ciclo vicioso.
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