terça-feira, 25 de agosto de 2015

podíamos ser nós, mas nós o que fazemos? erguemos muros

fonte: 24.sapo.pt


"Dormi abraçada ao nosso Texuguinho, sei que não estás cá mas estás bem, sei que a filha grande dormiu tranquila nos avós, sei que amanhã estaremos todos juntos novamente. Elas não terão conseguido dormir nos abrigos agarradas aos filhos, não saberão de família e dos amigos, sequer se os voltarão a ver. A R chorou ao acordar, não queria vestir a roupa que lhe tinha destinado. Os filhos delas choram de fome, de angústia, de dor. A L tem medo de cães e do escuro, a R do escuro e de dragões. Os filhos delas têm medo dos soldados, dos rockets, das bombas, de morrer ou que lhe morram os pais. No fim de semana almoçámos e jantámos fora, tivemos festa. Elas fugiram para salvar os filhos, algumas tiveram de os enterrar. Elas podiam ser eu, tivessem nascido em Portugal. Eu podia ser uma delas, tivesse nascido em Gaza, no Iraque, na Síria, na Ucrânia ou num desses países esquecido por Deus e pelos homens. A vida continua, dir-me-ás. Claro. Continuaremos a jantar e almoçar fora ao fim de semana, partiremos de férias brevemente. Elas continuarão a fugir, algumas terão de enterrar os filhos. A vida continua, bem sei, mas com muito menos fé na humanidade."

Há um ano, hoje e, infelizmente, amanhã. Nós continuamos no nosso mundo pequenino. Praguejamos contra o tempo, indignamos-nos por todos os Cecils que alguém se lembra de nomear, e pedimos, ao mundo pequenino, que aclame os momentos felizes que ninguém nos pediu para ver mas nós insistimos em partilhar. Sim, eu também. 

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