"Não menos grave do que tudo isto é enorme concessão ao facilitismo e ao relaxe do rigor e da exigência. A defesa da abolição dos exames, como ficou cristalino no Parlamento, é tributária de uma narrativa classista, fomentadora da desigualdade e impeditiva da mobilidade social, que trata as crianças com paternalismo bacoco e não se preocupa com a enorme competição e concorrência internacional a que estarão sujeitas quando entrarem na vida profissional. É necessário que se esclareça que os tão amaldiçoados exames de Português e Matemática do 4.º ano só valiam trinta por cento na nota final dos alunos. E que, por isso mesmo, não retiravam à avaliação contínua e à apreciação do docente o papel que podem e devem desempenhar. Mas é também evidente que um exame mede capacidades e aptidões que uma avaliação continuada não é capaz de medir. E introduz um factor de justiça nacional e territorial que não pode ser desvalorizado, permitindo ao mesmo tempo uma avaliação dos professores e das escolas. É ridícula a asserção de que as crianças podem sair traumatizadas. É hipócrita a ideia de que os exames são socialmente injustos, porque privilegiam as classes mais favorecidas. Tanto mais quanto os autores da abolição vieram alegar que só com a avaliação do professor dos alunos se podia fazer um juízo de contextualização social da aprendizagem. Nem a vida nem a competição internacional – vinda dos países de leste ou do extremo oriente – se compadecem com esta “infantilização” do discurso. Só uma escola exigente e rigorosa permite a mobilidade social. Uma escola laxista e descontraída é o maior foco de reprodução e ampliação das assimetrias sociais. Numa escola relaxada, os que dispõem de um contexto sócio-cultural privilegiado podem sempre aprender em casa; já os mais carenciados só têm uma oportunidade e um local: uma escola que olhe por eles; que puxe por eles. E uma escola sem exames, não puxa. Alimenta e instila a mediania, quando não a mediocridade."
Rumo ao facilitismo, rapidamente e em força, Paulo Rangel, público.pt
Sem comentários:
Enviar um comentário