quinta-feira, 4 de julho de 2013

porque há quem dê uso às palavras incomparavelmente melhor que eu

"São instantes em que a garganta se aperta e desviamos o olhar, esperando em vão que se abra o buraco onde queremos desaparecer. Espero vez na caixa do restaurante. A mulher veio buscar dois almoços. Faltam-lhe uns trocos. Bem sabia, mas a necessidade e a fome empurram. Desculpa-se, procura, depois traz, sorri, atrapalha-se, os que por acaso ali estamos fingimos não ver nem ouvir. O proprietário, caridoso, entrega-lhe a comida e diz que sim, depois, então até amanhã. 

Estou na Praça da Batalha, no Porto. Desço para Sá de Bandeira. O homem vem subindo, curvado, macilento. A sua roupa fala de um bem-estar perdido, de dores e desespero, urgências, medo. A uns dez passos encara-me. Lê-se-lhe a aflição no rosto, mede-me, vai ousar, sente que não lhe negarei a esmola, agora ao meu lado quase me toca. Mas os nossos olhares cruzam-se, hesita um nada, a vergonha empurra-o e continua o passo, falta-me coragem para detê-lo."

JRC, tempocontado.blogspot.com

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