À cabeleira curta e farta, de uma alvura impressionante, costumo vê-la, uma, duas vezes, por alturas do fim do mês, encostada ao muro de entrada do café da praceta. Ela arranjada, imaculada, como a sua cabeleira.
Habituei-me à bênção com que me brinda cada vez que lhe estendo um ou dois euros, conforme for a disponibilidade da carteira, "Muito obrigado minha filha! Deus te proteja! A ti e às tuas meninas! Que tenham muita sorte na vida!". Todos os meses, desde que a L. nasceu.
Desconheço a história, apenas que o dinheiro lhe rareia para pagar contas, que um desses meses me faltaram moedas na carteira e lhe estendi uma nota de cinco euros com o condão de multiplicar as bênçãos, "Já posso pagar a luz! Obrigado minha filha! Já vou embora!".
Estava cansada no último mês, quando, ainda não eram oito da manhã, lhe estendi a moeda, "Já me canso tanto para chegar aqui... Obrigado minha filha!". Não aceitei o desafio, "Está muito calor, não é?", e corri para o carro, que estava atrasada para a vida. Imaginei a avó A., que não, não podia nunca ser. E o pior é que podia, assim a vida o tivesse querido. E o pior é que à cabeleira curta e farta, de uma alvura impressionante, talvez fizessem falta, nesse mês, dois minutos de atenção ao invés de dois euros.
Sempre que pode apregoa, "Esta menina é muito minha amiga! Que Deus a proteja", e sinto ainda mais vergonha, por não fazer melhor.
Hoje é Dia do Idoso, e eles merecem bem mais do que uma esmola de dois euros.
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