Quando a L. tinha 2 anos, numa das inúmeras visitas ao IKEA em que nos esquecemos de contornar a área dos brinquedos, resolveu tentar a sua sorte com um dos muitos peluches disponíveis.Estas tentativas são geralmente infrutíferas, mas nesse dia a L. contava com um poderoso aliado: a avó T.. Escolheram as duas um cãozinho cor de areia e não houve quem as demovesse de o adoptar.
Confesso que o sucesso desta operação se deveu em parte ao facto do dito cãozinho me fazer lembrar o meu próprio amigo de infância, cujo nome se encontra perdido no emaranhado de recordações de criança, e que ficou incapacitado para a vida quando perdeu um dos botões que lhe servia de olho esquerdo, e o implante tentado pela avó T. não resultou.
Quando chegamos a casa o animal teve o mesmo destino de todas as outras "prendas de ocasião": foi atirado para o fundo do armário, fazendo desvanecer de uma só penada as lembranças nostálgicas do meu velho amigo.
Nesse ano, passamos as férias de Verão num daqueles hotéis no Sul de Espanha, com uma trupe de animadores hiperactivos, que repetem vezes sem conta as fórmulas do sucesso para a alegria geral.
A animação para as crianças consistia na aparição de uma criatura resultante do cruzamento entre o Spongebob e um javali, de quem a L. fugia a sete pés, ao som de uma banda sonora que incluía invariavelmente o hit infantil Boogie Woogie.
No regresso de férias L. tinha de enfrentar o grande desafio de deixar a segurança da casa dos avós e ir para a escolinha pela primeira vez. Num dos dias de maior ansiedade foi descobrir o cãozinho enterrado no armário, socorreu-se dele e nunca mais o largou.
Quando vimos que a amizade recente era séria, pedimos-lhe para o baptizar, e na falta de melhores lembranças ela lançou: Woogie Boogie. E Woogie Boogie ficou. Woogie Boogie tornou-se o seu companheiro de todas as horas, de algumas brincadeiras e principalmente das noites de sono, esganado num abraço apertado que só era desfeito às primeiras horas da manhã.
No domingo passado, ao deitar, L. pegou no Woogie Boogie e atirou-o para o chão. "Não quero dormir mais com o Woogie Boogie! Não preciso de nada!".
Com pena do animal, e, incontestavelmente, da filha estar a crescer tão rapidamente, tentei por diversas vezes reatar a amizade ao longo da semana, mas a L. está irredutível: " O Filipe não dorme com nada!".
Ai,ai, Sr. Filipe!... Acho que está na altura de termos uma conversa séria!
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